Observation

Observation

Auto Observação

Se desejamos conscientemente trilhar a senda do AutoConhecimento, objetivando um mundo melhor, é importante desenvolver a arte da auto-observação.

O que está acontecendo nesse momento?
Como eu me sinto?
O que estou fazendo, reagindo à situação ou procurando me situar nela para então escolher como quero responder a esse estímulo?
Como me relaciono comigo, com as pessoas, com as situações?
Busco viver em paz internamente e promover a paz à minha volta?
O que eu quero para mim, para meus filhos, meus netos, meus alunos, meus clientes, para o Planeta?
Como promover a Paz?
Será a Paz simplesmente ausência de guerra?
E se assim fosse, como poderíamos deixar de “guerrear” – porque guerreamos dentro de nós mesmos quando nos julgamos, quando nos criticamos ferozmente. Guerreamos fora de nós quando criticamos o outro, quando só vemos o defeito.
Como orientar as pessoas que nos procuram para que elas possam encontrar a Paz dentro delas?
Como educar os jovens nesse mundo tão competitivo, tantas vezes hostil e árduo?
Como aprender e ensinar a viver com o “diferente” de si mesmo?
Como desenvolver um olhar e uma postura que inclua as diferenças, reconhecendo os talentos presentes, com uma atitude empreendedora para fazer uma diferença saudável nesse mundo?

“Aquele é Perfeito, Este é Perfeito. Este Perfeito fora projetado daquele Perfeito. Quando este Perfeito imergir naquele Perfeito, tudo o que permanecerá será Perfeito. Om Paz, Paz, Paz”.

“Qualquer discórdia com alguém deve ser superada através de uma mudança na minha atitude. Meu papel é inspirar. Nunca questionar, confrontar, criticar ou mesmo comentar. Nunca tentar controlar. Preciso ter controle sobre minhas ações, não sobre as ações dos outros. Tenho que ser muito cauteloso com minhas palavras. O que eu digo pode provocar grande impacto e obscurecer a percepção do outro. Por isso preciso aprender a mudar as respostas. Aprender a ser mais leve e despreocupado.”
Mohini Panjabi

Idade para Vivier

Idade para Viver

Fragmentos da Vida

A vida é um momento.
Acredito nisto. Não posso dizer que eu pratique esta idéia, mas sempre acordo com isto na cabeça e não consigo dormir sem deixar este pensamento de lado.
A vida é só um momento dividido em pequeníssimas partes. Partes de anos, meses, dias, horas, minutos, segundos… Não interessa. A vida toda pode ser vivida em apenas uma destas partes. Ou pode nunca ser vivida, nem na soma das partes.
A vida de um bebê que morre logo após o parto é só um momento. Um momento de poucos segundos ou minutos. Pena ele não ter a consciência disto, mas com certeza ele viveu momentos extremamente emocionantes durante toda a sua vida. Sair do útero e encontrar um mundo novo, cheiros novos, cores novas, seres novos… É uma pena não ter tido mais tempo, mas ele viveu intensamente.
A nossa vida é um momento, a qual já inicia em contagem regressiva. Vivemos estes pedaços de vida como se fossem somente migalhas do todo. Infelizmente não sabemos em que número o contador está. A migalha pode ser todo o momento que temos.
Renascer a cada migalha e lembrar pra sempre disto. Acredito nisto. Não posso dizer que pratique.
Um momento é a nossa vida.

Por Cima ou Por Baixo

Por Cima ou Por Baixo

O homem é definido como um ser que evolui, como o animal é imaturo por excelência.

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

Friedrich Nietzsche

Charles Darwin

Charles Darwin

O cientista da Teoria da Evolução foi impiedoso e sarcástico com o País que conheceu em 1832. “Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo”. Assim definiu os brasileiros em seu diário.

Em 27 de dezembro de 1831, perto da hora do almoço, o H.M.S. Beagle zarpou de Plymouth, Inglaterra, com um objetivo portentoso: navegar pelas regiões costeiras de todo o Hemisfério Sul, para abastecer a Marinha Real Inglesa, então senhora dos Sete Mares, com informações precisas sobre as peculiaridades geográficas e geológicas das suas costas marítimas. O Beagle parecia modesto para aquela empreitada: 27 metros de comprimento por 7,5 de largura, levava 73 tripulantes, entre os quais um passageiro/convidado ilustre: Charles Darwin, então com 22 anos e sem nenhuma ideia, ainda, para a obra que o tornaria famoso: Sobre a Origem das Espécies.

Darwin pagara a própria passagem, mas teria a bordo uma tarefa delicada: jantar todos os dias com o capitão Robert Fitzroy, proibido, pelos severos códigos da Marinha Real, de conviver com a marujada sob seu comando. Seriam cinco longos anos de jantares, nem sempre agradáveis, pois o capitão, de apenas 26 anos, era pessoa irritadiça, de ideias preconceituosas – por exemplo, defendia a escravidão, que o jovem conviva abominava. Darwin estava interessado em conhecer aquela parte do globo, sua vegetação e seus animais, insetos sobretudo, que eram a paixão de sua vida, e por isso lançou-se ao mar, corajosamente, apesar do estômago fraco e inclinação para enjoos.

“Cruzamos o Equador”, ele anotou em seu diário no dia 17 de fevereiro de 1832, “e passei pelo desagradável ritual de ter meus cabelos e minhas barbas raspados.” Era o castigo de Netuno aos noviços em navegação. No dia seguinte, já seguramente dentro do Hemisfério Sul, devaneou: “Em agosto, calmamente passeando por Gales; em fevereiro, em um hemisfério diferente: nada mais nesta vida me há de surpreender”. Engano quase tão grande quanto a viagem apenas iniciada. Os próximos cinco anos seriam uma sucessão de surpresas e espantos, quase que diários. No dia 20, quando o Beagle ancorou em Fernando de Noronha, ele teve uma primeira visão da floresta tropical, com “grandes magnólias e louros e árvores cobertas de delicadas flores”. Precavido, observou: “Tenho certeza de que toda a grandiosidade dos trópicos ainda não foi vista por mim”.

Darwin Brasil

Darwin Brasil

No dia 28, cerca das 9 horas, avistouse a costa do Brasil, na Bahia. Era, enfim, toda a grandiosidade dos trópicos que surgia aos seus olhos e foi o primeiro deslumbramento: “Seria difícil de imaginar, antes de ver o panorama, algo tão magnífico”. E já no desembarque, olhando mais de perto para a costa, não se conteve. “O deleite que se experimenta em momentos como esse confunde a mente: se o olho tenta seguir o voo de uma colorida borboleta, ele é detido por uma árvore ou um fruto estranhos; se observando um inseto, podese esquecê-lo na estranha flor sobre a qual caminha; se estiver se voltando para admirar o esplendor do cenário, o caráter individual do primeiro plano toma a atenção”, anotou.

O dia seguinte, em terra, passou “deleitosamente”. Logo veio a ressalva: “Deleite é, no entanto, um termo fraco para tais transportes de prazer (…) Tenho caminhado sozinho pela floresta brasileira; entre a multidão é difícil de dizer que conjunto de objetos é mais impressionante: a exuberância da vegetação inclui a vitória, a elegância das gramíneas, a novidade das plantas parasitas, a beleza das flores (…) O barulho dos insetos é tão alto que à noite pode-se fazer ouvir mesmo em uma embarcação ancorada a centenas de jardas da praia”.

E 4 de março era o primeiro dia de carnaval. O passeio pela cidade de Salvador foi atribulado: “Wickham, Sullivan e eu, nada destemidos, estávamos determinados a encarar seus perigos. Esses perigos consistem em ser alvejado sem misericórdia por bolas de cera cheias de água e sair encharcado por grandes seringas de lata. Achamos muito difícil manter nossa dignidadeenquanto caminhávamos pelas ruas”. Nos dias seguintes, o intrépido viajante ficou de molho no navio, com um joelho inchado, ferido por um espinho na mata que ele tanto admirava.

Acamado, recebeu visitas, e em uma delas – o capitão Piaget – deu-lhe as primeiras impressões do povo que estava começando a conhecer. E ele anotou no diário: “Não tenho dúvidas de que a atual situação da maioria absoluta da população escrava é muito mais feliz do que estaríamos previamente inclinados a crer. O interesse e qualquer bom sentimento que pudesse ter o proprietário acabariam por levar a isso. Mas é totalmente falso que nem um deles, mesmo entre os mais bem tratados, quer retornar a seu país. ‘Se apenas eu pudesse ver meu pai e minhas duas irmãs mais uma vez já ficaria feliz. Nunca consegui esquecê-los’. Tal foi a expressão dessa gente, que é considerada pelos selvagens refinados da Inglaterra como mal sendo sua irmã, mesmo diante dos olhos de Deus”.

A estada em Salvador foi curta, mas proveitosa. No dia 30, o Beagle zarpou para o Rio de Janeiro. Ficaria ali três meses e Darwin teria tempo de sobra para se surpreender e deslumbrar coma natureza e conhecer os brasileiros. Maravilha de um lado, horror do outro.

O desembarque, em 1º de abril, foi precedido pelas costumeiras brincadeiras do Dia da Mentira. Na condição de passageiro endinheirado, Darwin deu-se ao luxo de alugar, em Botafogo, “uma casa maravilhosa que nos vai fornecer acomodações excelentes”. O dia 6, todo gasto para obter um passaporte que o habilitaria a viajar pelo interior, foi um tormento: “Nunca é muito agradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis suas pessoas, é quase intolerável. Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e aligátores fará um naturalista lamber o pó da sola dos pés de um brasileiro”.

A esta altura, Darwin já se tornara o naturalista oficial do Beagle. Esse cargo, em viagens daquele tipo, era ocupado sempre pelo médico(cirurgião) do navio, no caso Robert McCormick, que não caiu no agrado de Fitzroy. No Rio de Janeiro, providenciou-se uma doença imaginária e ele foi despachado de volta para a Inglaterra. Nos três meses em que permaneceu no Rio de Janeiro, Darwin viveu dias que seriam maravilhosos, não fosse o indispensável contato com os brasileiros, ricos e pobres, gente supostamente fina, na corte, nos teatros, restaurantes, cafés, ou no interior, gente rústica, grotesca mesmo, para um cavalheiro europeu, como ele. E, pior de tudo, os escravos, naturalmente.

Foram inúmeras viagens ao interior do estado do Rio, sempre a cavalo. Enfrentou chuvas torrenciais e as descreveu com espanto, comparando com o que estava habituado a ver na Inglaterra. Patrick Lennon, um típico irlandês há vinte anos estabelecido no Brasil, concordou em levá-lo a “um terreno florestal” que possuía em Macaé. Foram também o filho de Lennon, o senhor Lawrie, “um escocês bem informado e esperto, homem egoísta e desprovido de princípios”, com o amigo Gosling, “aprendiz de boticário”, e um negrinho como guia. “Os ermos dos Brasis poucas vezes viram conjunto mais extraordinário e quixotesco de aventureiros”, registra o diário.

A primeira etapa foi a passagem por uma floresta que mais uma vez deslumbrou o naturalista: “Eu estava completamente perdido, incapaz de admirar o suficiente essa cena”. Dois dias depois, o almoço na venda da estrada foi, como sempre, complicado. Nada do que se pedia estava disponível: peixe, sopa, pão, carne-seca. “Em um dia de sorte, esperando duas horas, conseguíamos carne de aves, açúcar e farinha. Não é infrequente acontecer de o hóspede ser obrigado a matar a pedradas as galinhas de sua própria refeição.”

O elogio aos preços modestíssimos foi logo seguido da ressalva: “…mas, se conseguirem, enganarão o viajante com as contas. Os donos são pouquíssimo corteses e muito desagradáveis em seus modos. Suas casas e suas pessoas são com frequência de uma sujeira imunda. A falta da comodidade de garfos, facas e colheres chega mesmo a ser comum”.

Quando chegaram à fazenda, “houve uma briga das mais violentas e desagradáveis entre o senhor Lennon e seu agente. Durante a briga, o agente do senhor Lennon ameaçou vender em leilão aberto uma criança mulata ilegítima, pela qual o senhor Cooper tinha muito afeto. Ele também quase executou um plano de tirar todas as mulheres e crianças de seus maridos e vendê-los separadamente em um mercado no Rio de Janeiro. Pode-se imaginar dois exemplos mais horrendos e flagrantes?”

Tais desconfortos eram compensados diariamente pelas belezas naturais. “Se desviamos os olhos das folhagens mais altas para o solo, eles são atraídos pela extrema elegância das folhas de inumeráveis espécies de gramíneas e mimosas. Assim, é fácil especificar objetos individuais de admiração, mas quase impossível dar uma ideia adequada das sensações mais elevadas que são provocadas: pasmo, espanto e sublime devoção enchem e elevam a mente.”

Na volta à cidade do Rio de Janeiro, Darwin trabalhou arduamente pelas redondezas, recolhendo espécies de animais e plantas, que eram bem acondicionadas e despachadas para a Inglaterra. Queixava-se alegremente de que um dia de coleta era tão rendoso que lhe consumia vários dias de trabalho para classificar e embalar tudo. Subiu várias vezes ao Corcovado, frequentou a boa sociedade, mas sempre tinha uma crítica ferina a fazer, como esta do dia 14 de junho: “À noite fui com o senhor Scott (o adido) ouvir um célebre executante do pianoforte. Ele disse que as aberturas de Mozart eram fáceis demais. Imagino que na mesma proporção em que a música que tocou foi-me difícil demais de apreciar”.

O horror da escravidão, com certeza, foi o que mais marcou a passagem do cientista pelo Brasil. Um horror jamais atenuado: muitos anos depois, em 1845, quando seu amigo e mestre em geologia, Charles Lyell, tendo lançado um novo livro, preparava-se para viajar aos Estados Unidos, para divulgá-lo, e o convidou a fazer o mesmo, ele recusou e anotou no seu Journal: “Agradeço a Deus nunca mais ter de visitar um país escravagista. Até hoje, quando ouço um grito distante, ele me faz lembrar com dolorosa vivacidade meus sentimentos, quando, passando em frente a uma casa próxima de Pernambuco (ele queria dizer Recife, onde o Beagle atracou na viagem de volta para a Inglaterra), eu ouvi os mais penosos gemidos, e não podia suspeitar que pobres escravos estavam sendo torturados. Perto do Rio de Janeiro eu morava em frente à casa de uma velha senhora que mantinha torniquetes de metal para esmagar os dedos de suas escravas. Eu fiquei em uma casa em que um jovem caseiro mulato, diariamente e de hora em hora, era vituperado, espancado e perseguido o suficiente para arrasar com o espírito de qualquer animal. Eu vi um garotinho, de seis ou sete anos, ser castigado três vezes na cabeça com um chicote para cavalo (antes que eu pudesse interferir) por ter-me servido um copo d’água que não estava muito limpo”.

Essa impressão jamais se extinguiu. Muitos anos mais tarde, quando já enfrentava a competição de Alfred Russel Wallace pela paternidade da teoria da seleção natural, diante de notícias aterradoras sobre a carnificina da Guerra Civil nos Estados Unidos, ele se manteve inflexível: “A extinção da escravidão bem que valeria doze anos de guerra”.

Ao se despedir do Brasil, ainda no Rio de Janeiro, anotou no diário um julgamento devastador dos brasileiros, nascido das muitas coisas que deles ouvira naqueles meses de convívio: “Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer vantagem sobre os miseráveis e os pobres. Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem só uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem humorados enquanto isso não lhes causar problemas; temperados, vingativos, mas não explosivos; satisfeitos com suas personalidades e seus hábitos, respondem a todos os comentários perguntando ‘por que não podemos fazer como fizeram nossos antepassados antes de nós?”

Três meses antes, caminhando pelas ruas de Salvador, “numa tarde brilhante e claríssima – nem um sopro de ar movia as folhas; tudo estava silente; nada podia ser mais apropriado para fixar em nossas mentes as últimas e gloriosas lembranças da Bahia” – Darwin fizera outro comentário desalentado, que nosso espírito brincalhão/irônico/autoflagelador transformou em uma piada já tradicional: “Se ao que a natureza concedeu aos Brasis o homem acrescesse seus justos e adequados esforços, de que país poderiam jactar-se seus habitantes? Mas onde a maioria está ainda em estado de escravidão e onde o sistema se mantém por todo um embargo da educação, fonte principal das ações humanas, o que se pode esperar a não ser que seja o todo poluído por sua parte?”

“Comendo LIXO” –   ( do verbo COMER).

Comendo Lixo

Comendo Lixo

“Porque as pessoas que estudam precisam usar o lixeiro.  Jogar lixo no chão não pode.  Amanhã ensinar as crianças que se jogar lixo no chão precisa varrer, ajudar. Elas entendem que para ficar limpo precisam jogar lixo no lixeiro. Certo e importante. As pessoas jogam lixo na rua. A chuva leva o lixo e os meninos com fome pegam para comer lixo sujo. É preciso manter limpo. Acabou!”

Pessoas comendo Lixo no centro do Rio de Janeiro.

Ao cair da noite no centro do Rio de Janeiro, duas mulheres remexiam restos de comida em sacos de lixo deixados do lado de fora de um restaurante. Tinha visto aquela cena muitas e muitas vezes durante a vida.  Passei por aquelas pessoas como sempre fiz, como todos fazem, todos os dias.  Mas hoje foi diferente

- Parei.

Me deti por um momento, decidi dar meia-volta.  Fui conversar com elas.
Me apresentei, disse que desejava tirar umas fotos. Desconfiadas a princípio, acabaram por concordar.

A repugnância da cena me distraiu completamente.  Só pensava em registrar tudo aquilo através de imagens.  Lembro de pouca coisa de nosso diálogo. Disseram morar longe e que toda semana cumpriam um ritual: separavam o que deveria ser consumido por cães e porcos e o que poderia servir de alimento para elas e suas famílias.
Um absurdo tão grande que em certo momento pensei em lhes perguntar se estavam mesmo dizendo a verdade.

Que completo idiota eu sou,  pensei.  Acabei esquecendo de filmes como “Ilha das Flores” e “Cronicamente Inviável”. Gente que come lixo é um fato!

Terminei com as fotografias, e elas com a tarefa de ensacar aquela mistura repulsiva. Não consegui guardar na memória seus nomes, mas aquele momento eu levarei comigo até o fim da vida. Nem pude me despedir com um beijo no rosto ou um aperto de mão. Isso me constrangeu e me machucou. Fui embora com o estômago revirado e só pensava em vomitar e revelar o filme.

Dessa estória um detalhe importante me ocorreu. Apesar do odor revoltante daquela comida azeda, elas não demonstravam sentir nojo do que estavam fazendo. Acabaram se acostumando a comer lixo.
E os transeuntes que sempre passam por alí apressados acabaram se acostumando a ver pessoas comendo lixo. Afinal, comer lixo é ainda melhor do que não comer nada, não é?

Fico pensando nesses transeuntes.

Parecem que somente se dão conta da tragédia que se espalha pelas calçadas quando a vêem numa confortável sala de projeção de algum centro cultural ou espaço de cinema. E essa consciência parece cessar assim que põem os pés no asfalto. Se sensibilizam com o drama projetado na tela, mas recusam-se a aceitá-lo em sua versão original nas ruas.

Pior que uma sociedade apodrecida, é o perigo de nos acostumarmos com o fedor dela…

Comentários dos observadores…

“Loucura é ver a fome e achar normal, loucura é a desigualdade social, loucura nao é lutar por um ideal…loucura…
üma resposta aos que me chamam de louco no dia dia…

Impressionante. A gente vai se acostumando com a miseria, a dor e a morte e tem que se ressenssibilizar.
Capitalismo é foda!

a minha nao-participacao
M.Delarue 08/04/2001 01:53

Realmente, pessoas comerem lixo ou não comerem nada é um fato.
E bastante pertinente é o comentário de que nós geralmente nos sensibilizamos “com o drama projetado na tela, mas recusam-se a aceitá-lo em sua versão original nas ruas.”

O embrutecimento e a falta de ligação com a realidade pode ser sentida não apenas na dicotomia da falsa vida das telas x vida real, como também entre o discurso politico, as teorias e intenções versus a ação direta prática e cotidiana. Não estou defendendo o assistencialismo ou qq coisa do tipo (embora considere melhor matar a fome de alguém do que não fazer nada ou saciar apenas seu apetite intelectual). Acontece que muitas vezes eu me pego ignorando a miséria ao meu lado ou agindo contra meus principios.

Bad times for the U.S.A./World ecomony… are they really that bad?

Sometimes I wonder how bad things really are. Most of the “bad” news I’ve heard is people can’t get credit to buy the brand new Escalade SUV. Or that they can’t afford their 5,000 square foot homes (queue sad violin music here). Most of the “bad” news just doesn’t sound so bad to me. People will have to start saving instead of jacking up their credit cards! Oh $h*#! Not that, anything but that.

There are times when our “troubles” seem so silly in comparison to what other people go through daily. This little guy is eating a mouth full of garbage and probably won’t live to see his 20th birthday. When the average American is eating the same (I’m not talking about McDonalds either) then we can say things are bad. But with New York, California, Arizona, and other states going bankrupt maybe we’re not to far off from the image below.

Eating ate the Dump

Eating ate the Dump

Miséria Humana

Ó miséria humana
Que te alimentas do ódio
És dor que racha o peito
Daquele que mergulha no lodo
Para salvar o irmão do ópio.

Ó miséria humana
Que te alimentas do terror
És dor que despedaça a alma
Daquele que procura
A Luz, o Caminho e o Amor.

Ó miséria humana
Que te alimentas da ignorância
És dor profunda
Daquele que já transpôs
Os meandros da ilusão
E se transfigurou
Numa Luz em abundância.

Ó miséria humana
Que te alimentas da separação
Não existe uma razão
Para que tu me faças sofrer,
Pois o tu e o eu não existe
Só o Uno consiste
Para lá do ter.

Ó miséria humana…
Espero que um dia
Possas vir morrer á fome.

Jorge Moreira –

Lúcifer

Lucifer Liege Luc Viatour

Lucifer Liege Luc Viatour

“Entre pensamentos e visões noturnas, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobrevieram-me o espanto e o temor, e todos os meus ossos estremeceram. Um espírito passou por diante de mim, e fez-me arrepiar os cabelos do corpo. Parou ele, mas não consegui discernir sua aparência. Um vulto estava diante dos meus olhos, e ouvi uma voz abafada: Pode o homem mortal ser mais justo do que Deus? Pode o homem ser mais puro do que seu criador? (Jó 33:12-18)

MEFISTÓFELES NA BÍBLIA GOETHIANA

Inúmeros místicos iluminados, como Samael Aun Weor, vêem na obra de Goethe a mão inconfundível de um Iniciado esclarecido, e percebem plenamente o grande significado cósmico nela contido. Devemos entender que a história de Fausto é um mito tão antigo quanto a humanidade. Goethe apresentou-a envolta numa verdadeira luz mística, iluminando um dos maiores problemas da Filosofia, o Mito do Salvatur Salvandus “travestido” como O Tentador, o Insuflador da Rebeldia Interior contra o Adormecimento e a ingenuidade irresponsável da Essência humana. Esse Tentador é representado pelo Diabo, chamado nessa obra de Mefistófeles.

Na monumental e absolutamente prospectiva obra de Goethe, Mefistófeles diz a Fausto: “Com essa dose no corpo, logo vês Helena de Tróia em qualquer mulher”. Fausto, I, 2603-4. Nesse momento, Fausto estava paralisado pela fascinação da imagem de Helena refletida em um espelho. Em uma de suas cartas a C.G. Jung , Freud cita Mefistófeles, dizendo: “Sinto-me como aquele que vê Helena em toda mulher !” Helena de Tróia, para Goethe, o Iniciado alemão, seria a representação arquetípica de nossa Alma Gêmea, nossa Amada Imortal como a chamava Beethoven. Mas, afinal, quem seria Mefistófeles?

A história de Fausto é bem conhecida: O Dr. Fausto é um velho cientista que sacrificou toda a sua vida em nome da ciência e da pureza de sua alma. Mefistófeles aposta com Deus que consegue atraí-lo para o seu lado. Deus permite que a experiência seja feita. Mefistófeles conhece bem sua presa: Fausto está cansado e alquebrado, insatisfeito com as coisas que realizou e sente que, na verdade, perdeu tempo, sacrificando sua mocidade, sua saúde e sua riqueza. Provavelmente morrerá pobre e desconhecido sem nunca ter amado. Na prática, não é muito difícil aceitar um pacto proposto por Mefistófeles: este lhe dará a juventude perdida, dinheiro e o amor de uma mulher. Em troca, Fausto lhe dará sua alma. Com o pacto selado, Fausto conhece e se apaixona por Margarida, cuja alma também estará em perigo.

Fausto é a obra da vida inteira de Goethe. Começou a ser escrita em 1774, a primeira parte foi publicada em 1808; a segunda somente foi concluída em 1832, pouco antes da morte do autor. Resumo de uma época e prova da genialidade de Goethe, Fausto faz parte do patrimônio cultural da humanidade.

Lucifer Prometeus

Lucifer Prometeus

“A mentira das igrejas e congregações, cegam os seus olhos, e nao conseguem ver o brilho real da estrela da manhã! a verdade absoluta não pertence a mente humana e fraca, porém ela pode ser alcançada com a plenitude da alma.”

John Milton

“Fere-lhes com tais modos os ouvidos:
Dominações, virtudes, principados,
Tronos, poderes, se são vossos inda
Estes imensos títulos pomposos,
Se acaso inda não são nomes inúteis:

Há quem, por um tirânico decreto,
Todo o poder a si vem arrogar-se
Fazendo dele horrível monopólio,
E, sob o nome de monarca ungido,
Eclipsa nossa glória e privilégios.


Toda esta marcha rápida, noturna,
Esta convocação acelerada,
Promove-as ele, a fim de vermos como,
Com que pompas nos cumpra recebê-lo
Quando vier extorquir de nós – escravos !-
Tributo genuflexo agora imposto,
Vil prostração, que feita ante um já cansa,
Que feita a dois se torna insuportável!

E não pode outro arbítrio mais sisudo
Dar-nos mais elevados pensamentos,
Que a sacudir tal jugo nos ensinem?
Curvareis vosso colo majestoso ?
Súplice joelho dobrareis humildes ?
Decerto o não fareis, se não me engano,

Que vosso jus por vós é conhecido:
Bem sabeis que no Céu nascidos fostes,
No Céu antes de vós nunca habitado;
E, se ente vós não sois iguais de todo,
Iguais contudo sois na liberdade:
As várias gradações, as jerarquias
Da liberdade os forros não estragam,
Antes maior firmeza lhes transmitem.

Quer dentre iguais na liberdade pode
Por direito ou razão alçar um cetro
Sobre consórcios seus, posto mostraram
Menor poder em si, menos fulgores?

Não temos leis e nem por isso erramos;
E quem tais leis impor-nos pode ou deve ?
Ninguém pois pode ser monarca nosso,
Nem de nós exigir tão vil tributo
Em desprezo dos títulos excelsos,
Que atestam destinada nossa essência
Para ser dominante e não escrava.”

(MILTON, John. O paraíso perdido. Trad. de Antônio José de Lima Leitão. S. Paulo: Logos, p. 261-2)

Machado de Assis

Machado de Assis

Primeiro poema publicado por Machado de Assis aos 16 anos de idade.
Em 12 de janeiro de 1855.

ELA

Seus olhos que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde com rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com meiguice e com primor

Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspira em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meiga e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se desliza,
Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um -sim-
P’ra alívio do coração!
Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh’alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
“Dá-lhe um suspiro de amor!”

ASSIS, Machado de, 1839 – 1908
O Almada & outros poemas / Machado de Assis – São Paulo
Globo 1997 – pág 80 (Obras completas de Machado de Assis)

Pensamentos -  Machado de Assis

[Frase final de Memórias Póstumas de Brás Cubas,1881]:
Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.

Creia em si, mas não duvide sempre dos outros.

Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.

Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz.

O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele.

A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.

Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro andar.

“Por que não ser como a flor, que exala perfume mesmo quando esmagada com a mão? ”

A IGREJA DO DIABO
Capítulo I
De uma idéia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero.

Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo. Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia,
e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: —
Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II
Entre Deus e o Diabo

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os
Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação… Boa idéia, não vos parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência… Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazêlas todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura…
— Velho retórico! murmurou o Senhor.
— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro
põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida… Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda…
Vou a negócios mais altos…
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os
sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los…
— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens… Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III
A boa nova aos homens

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo…

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras
cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu…” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal.

Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada.

A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração.

Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele. Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes
insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas,

o Diabo recorreu a um apólogo: —
Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV
Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a
conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a
cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá.

O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meterse na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe: — Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Vista

Vista

O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.

O conceito de espírito de época remonta a Johann Gottfried Herder e outros românticos alemães,  mas ficou melhor conhecido pela obra de Hegel, Filosofia da História. Em 1769, Herder escreveu uma crítica ao trabalho Genius seculi do filólogo Christian Adolph Klotz, introduzindo a palavra Zeitgeist como uma tradução de genius seculi (Latim: genius – “espírito guardião” e saeculi – “do século”). Os alemães românticos, tentados normalmente à redução filosófica do passado às essências, trataram de construir o “espírito de época” como um argumento histórico de sua defesa intelectual.


Quando o ser humano entra em desespero pelo seu fracasso, ou pela incompreensão da vida, ele espera que um psicólogo ou psiquiatra, um padre ou pastor, um astrólogo, tarólogo ou vidente, forneça respostas bonitinhas a respeito de como tudo funciona. Deseja que eles, profissionais do bem-estar, se é assim que podemos classificá-los, respondam de que forma poderia retirar o insuportável sofrimento que carrega e/ou como tudo irá se desenvolver no futuro próximo.

O único caminho capaz de atingir o autoconhecimento é a profunda reflexão das experiências obtidas na vida, pois podemos analisar nosso comportamento e compreender nossas ações. Agindo dessa forma, tendemos a evitar a repetição de erros, tais como, sempre brigarmos pela mesma coisa, termos o mesmo desfecho em todos os relacionamentos ou no trabalho. Somente parando, refletindo e analisando a nós mesmos é que poderemos encontrar a paz interior.

Lula Diplomata da Corrupção

Lula Diplomata da Corrupção

“Lula merece ter o seu pensamento esquadrinhado, medido, avaliado. Uma tarefa que, certamente, vai requerer o trabalho contínuo de um batalhão de historiadores e cientistas políticos por décadas a fio, até que uma imagem mais nítida do homem e do político possa começar a emergir.” Este livro, diz o autor, é uma contribuição para este longo trabalho. Mas o Lula que já emerge da análise que Kamel faz, sempre calcada em exemplos e estatísticas, supreenderá, certamente, tanto aqueles que o apoiam como aqueles que lhe fazem oposição.

Eu queria fazer um parêntesis aqui, nesse “pela primeira vez no Brasil”, porque, Nuzman [Carlos Arthur, presidente do COB], toda vez que nós falamos “pela primeira vez no Brasil” muita gente acha: “Mas por que que o Lula fala tanto ‘pela primeira vez’?” Porque é pela primeira vez. Porque são coisas tão óbvias, que nunca foram feitas, que nós somos obrigados a dizer: “Pela primeira vez está sendo feita, no Brasil, determinada coisa.” (17/6/04, Brasília –DF. Abertura da 1ª Conferência Nacional do Esporte).

O Poderoso Chefão

O Poderoso Chefão

... um presidente admitiu que não era a
primeira vez que ele dizia que algo era a primeira vez:

Eu vou ler um trechinho do discurso que eu fiz para os prefeitos, em fevereiro, quando houve aquele grande encontro no Hotel Blue Tree. O Jorge Mattoso pediu e eu anunciei que nós iríamos destinar 1 bilhão e 400 milhões  de reais para gastar em saneamento básico. E eu dizia que era todo o dinheiro que nós tínhamos para gastar este ano, achando que era pouco. E nós pretendemos, no final do ano, saber se gastamos aquilo que tínhamos para gastar. Porque uma coisa é um prefeito gastar mais do que tem, outra coisa é você ter um pouco e não gastar aquilo que tem. Então, não é possível que alguém fique com dinheiro em caixa, mesmo que seja um real, com tanta necessidade que o país tem.

Eu me lembro que depois que anunciei 1 bilhão e 400 eu recebi, na mesa, um papelzinho me alertando que não era a primeira vez que alguém anunciava 1 bilhão e 400 e que, no final do ano, esse dinheiro não saía, ora por problemas orçamentários, ora por problemas de contabilidade com o Tesouro, ou seja, por qualquer razão. E o que me deixou mais preocupado foi que o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso tinha anunciado, também no começo do ano de 2002, 1 bilhão e 400 milhões, a mesma quantia que eu tinha anunciado, e só tinha liberado, ao final do ano, 262 milhões. Eu me lembro que chamei o Mattoso e perguntei: “Espere aí, esse dinheiro é o dinheiro que você está sempre anunciando e nunca sai? Porque eu estou anunciando a mesma quantia que o Fernando Henrique Cardoso anunciou.” Foi aí que nós detectamos que havia problemas, que vocês, prefeitos e governadores, sabem. Tivemos uma conversa com o Mattoso e com o Palocci e chegamos à conclusão de que era uma questão de honra liberarmos todo esse dinheiro, até porque se não liberássemos, quando anunciássemos outra quantia de dinheiro para o ano que vem, ninguém iria mais acreditar. (17/12/03, Brasília – DF. Cerimônia de contratação de recursos do FGTS para saneamento ambiental)
… um presidente fez tantos discursos:

Eu não sei se na história do Brasil teve um presidente da República que faça o tanto de pronunciamento diário que eu faço. Tem dia que eu me canso de mim mesmo. Tem dia que eu faço oito pronunciamentos, tem dia que eu faço seis. (7/11/05, Brasília – DF. Entrevista ao programa Roda Viva)
… o Brasil teve um presidente tão certo do sucesso: Eu nunca estive tão tranquilo na minha vida, e nunca estive tão dotado da certeza de que nós vamos cumprir, não cada coisa que nós colocamos no nosso programa, mas cada coisa que foi a razão da nossa entrada na vida política do nosso país. (27/6/03, Brasília – DF. Abertura do Encontro Nacional de Vereadores e Deputados Estaduais do PT)
Eu nunca estive com tanta certeza e com tanta convicção de que o Brasil encontrou o seu caminho como estou agora. (17/7/07, Brasília – DF. 22ª Reunião Ordinária do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES)
Quando o Tony Reis [presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Transexuais e Travestis – ABGLT] fala que nunca antes na história do planeta um presidente convocou uma conferência como esta, eu fico orgulhoso porque nós estamos vivendo no Brasil um momento de reparação. (5/6/08, Brasília – DF. Abertura da I Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais – GLBT)

DICIONÁRIOLULA 3
Acho que nenhum presidente da República, que Governou este país desde que foi proclamada a República, tem a tranquilidade que eu tenho hoje. (23/8/07, Brasília – DF. Entrevista aos jornalistas Tânia Monteiro, Vera Rosa, Rui Nogueira e Ricardo Gandour, do jornal O Estado de S. Paulo)

Título: Dicionário Lula
Organizador: Ali Kamel
Formato: 13,8 x 21cm
Nº de páginas: 672
Preço de capa sugerido: R$ 59,90
ISBN: 978.85.209.2219-4

Lost

Lost

The Eye of God

The Eye of God

The colision

The Colision

Lucifer o mestre dos desejos

Lucifer o mestre dos desejos

A new computer model that includes a forest’s effect on regional climate shows that the Amazon rain forest could disappear much more rapidly than previously expected.

Rain forests depend on large amounts of precipitation to remain lush. Much of the moisture taken in by a trees’ roots returns to the atmosphere through the leaves in a process called transpiration. In the rain forest, this process has a significant effect on local and regional climates, says James E. Alcock, an environmental scientist at Pennsylvania State University’s Abington College in Abington.

Logging and burning for agriculture currently claim about 1 percent of the Amazon rain forest per year. Alcock says that this large-scale deforestation substantially alters the rate of transpiration.

After farmers and loggers cut and burn broad swaths of rain forest, more precipitation runs out of the area via the rivers. This leaves less moisture to return to the atmosphere–and that means, in turn, less rain. As a result, forest areas that people have cleared don’t grow back as quickly. Meanwhile, the decrease in precipitation slowly transforms the remaining stands of trees into a different type of forest.

Because large-scale deforestation of the Amazon River basin began in the mid-1970s, a simple calculation that accounts for regrowth predicts that the rain forest there will last only until 2150 or so.

However, Alcock says that when mathematical models also include the effects of decreased transpiration on regional climate, the forest disappears much faster. Such an analysis suggests that the Amazon rain forest could disappear sometime between 2020 and 2030, he notes.

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